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A Guardiã da Coleira de Ouro

A Guardiã da Coleira de Ouro

Na pacata Avenida River, todos conheciam Pipoca. Ela era uma Vira lata desajeitada, famosa por perseguir o próprio rabo e por sua obsessão por meias esquecidas no sofá. Para a família Rocha, Pipoca era apenas uma "boa garota". Mas, quando o sol se punha e o silêncio tomava conta do bairro, a realidade era outra.

Tudo começou há dois anos, durante uma tempestade solar sem precedentes. Pipoca estava mastigando seu brinquedo de borracha favorito no quintal quando um fragmento de energia cósmica, um pequeno cristal pulsante, caiu exatamente dentro de sua tigela de água. Ao beber, Pipoca sentiu um formigamento que ia do focinho à ponta da cauda.

Naquela noite, ela descobriu que podia ouvir o bater de asas de uma borboleta a quilômetros de distância e que seus latidos podiam criar ondas de choque capazes de parar um caminhão desgovernado.

A grande prova de Pipoca veio em uma terça-feira chuvosa. A antiga fábrica de biscoitos "Crocnic", no fim da rua, sofreu um curto-circuito. As chamas subiram rápido, e o pior: o gato da vizinha, o rabugento Sr. Bigodes, estava preso no sótão da fábrica, onde costumava caçar ratos.

Os bombeiros estavam a caminho, mas o fogo se espalhava com pressa. Pipoca, fingindo estar dormindo na varanda, esperou os Rochas entrarem para ver o noticiário. Com um salto ágil que desafiava sua aparência rechonchuda, ele pulou a cerca.

No caminho, ela passou por sua casinha e pressionou um botão escondido sob a grama sintética. Uma pequena gaveta se abriu, revelando sua capa feita de tecido de paraquedas lilás e uma máscara que se ajustava perfeitamente ao seu focinho.

Ao chegar na fábrica, Pipoca não hesitou. Ela usou sua Super-Velocidade Canina que ela chamava mentalmente de Modo Zoomies Máximo para atravessar as chamas sem se queimar.

Lá no alto, o Sr. Bigodes estava acuado, miando desesperadamente. Pipoca usou sua Visão de Raio-X Humano (ela conseguia ver através das paredes, mas apenas para localizar seres vivos ou petiscos escondidos) para encontrar o felino.

— Au! (Suba nas minhas costas, rabugento!) — latiu Pipoca.

O gato, surpreso demais para reclamar, cravou as unhas no pelo do cão. Com um salto monumental, Pipoca atravessou uma janela de vidro, caindo suavemente no gramado externo segundos antes de uma viga desabar.

Quando os bombeiros chegaram, encontraram apenas um gato chamuscado e confuso sentado na calçada. Pipoca já estava de volta ao seu quintal, guardando sua capa e escondendo a máscara sob uma pilha de ossos de couro.

Minutos depois, a Srª. Rocha saiu para o quintal. — Pipoca? Você ouviu aquela explosão, amigona? Você está tremendo... deve ser medo do trovão, né?

Pipoca apenas bocejou, deu uma lambida carinhosa na mão de sua dona e deitou-se sobre suas patas. Ela estava exausta. Afinal, salvar o mundo — ou pelo menos o bairro — dava uma fome terrível.

Enquanto fechava os olhos, Pipoca sorriu. O Sr. Bigodes agora lhe devia um favor, e ela sabia exatamente onde o gato escondia os melhores sachês de atum da vizinhança.

Moral da História: Nunca subestime um cachorro que parece estar apenas dormindo. Ele pode estar apenas esperando o próximo chamado da justiça ou o som do pote de ração abrindo.